Fazer as coisas com as próprias mãos
Há alguns dias, eu estava no quintal, espalhando pedras de sobre uma lona. A ideia era tentar resolver o problema da sujeira e melhorar o espaço para o cachorro, mas enquanto eu repetia aquele esforço físico com a pá, acabei percebendo outra coisa: o quanto esse tipo de trabalho manual me faz bem.
É um cansaço diferente. Passar a semana projetando arquitetura de software, lidando com abstrações e resolvendo problemas em linhas de código consome a cabeça. Mas descarregar a energia física em algo que você pode tocar, acertar e ver pronto ali na sua frente é quase uma necessidade.
Meu pai era pedreiro. Um homem que aprendeu a fazer de tudo e que não abria mão do capricho no que entregava. Ele construiu a casa em que eu cresci. Quando eu tinha uns dez anos, comecei a acompanhá-lo nas obras. Minha tarefa era carregar tijolo, bater massa, tentar tirar o nível com a mangueira d'água e conferir o esquadro. Eu aprendia um pouco de tudo, esbarrava nas minhas próprias dificuldades mecânicas da idade e, claro, levava algumas broncas. Ele era um cara de uma geração mais rústica, de poucas palavras, mas a intenção por trás da exigência era boa.
Lembro de uma vez em que perguntaram a ele se eu também seria pedreiro. A resposta veio sem hesitar: não, ele vai estudar.
Eu segui exatamente esse caminho. Fui para a tecnologia, estudei engenharia e construí uma carreira trabalhando com conhecimento intangível. Mas, de alguma forma, não perdi a satisfação de sujar as mãos. Seja comprando peças para tentar consertar algo no carro, cuidando do jardim ou fazendo o trabalho braçal de espalhar pedras no quintal.
O caminho que escolhi foi outro, bem diferente do dele. Mas a régua de qualidade, o gosto por resolver as coisas por conta própria e o respeito pelo trabalho bem feito vieram daquelas obras.
